deverão

dispensar os óculos pode ser precioso
as pessoas com rostos sem identidade
sorriso pode ser dor que pode ser lágrima que pode ser inércia
além das luzes, que ficam como que diluídas na matéria da tarde
(insisto: alguém podia fazer um ensaio sobre os bairros à tarde)
o sol cai diferente sobre as casas
cachorros preguiçosos nos quintais com o cheiro deles
os gatos já não: num tempo suspenso

pensar
o perfil fino das mariposas
e como qualquer coisa grave escapa nas reticências em festas

sobre lugares em que se está, naqueles em que você não deve estar
ou esse problema sério de a minha planta estar com as pontas amareladas
ou esse problema sério de as coisas acontecerem sempre no seu tempo

preferir
pensar a tarde infinita feita da matéria de coisas infinitas
ou você pode tentar fazer disso música
mas dá sete da noite e ainda é dia. dá sete horas e é dia.

píer

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encha a boca d’água porque a conversa do salto
quase sempre é cheia de sal
toda reticência trava atrás da língua e desemboca lá
em ilhas escondidas do corpo

você disse que, na pontinha, cada dia desliza menos
aí você disse que todos os dias dá pra ver da beira, feito barco
uma porção de partículas verdes em gotas gastas de desejo

desejar, aproximar, saltar
veja que quase tudo ainda é sobre verbo e vontades
saltar pra tocar o canto das baleias
saltar pelo fato de não entender nunca
esse calor concentrado na tua nuca

enchi, então, a boca d’água pra não salgar
mirei uma ilha, chamei pro raso palavra e movimento
de desejar, aproximar, saltar

desejar aproximar saltar

nublado e pancadas de chuva

estou focada na revisão de um texto. didático, história. na mesa da cozinha, o notebook e os papéis dividem espaço com pães, garrafa de café, fruteira. coloco um álbum instrumental pra tocar e embalar o trampo, ativo o cronômetro pra ver, afinal, quanto tempo levo na leitura das páginas. o meu pai chega, de súbito como sempre chega, e pergunta qual o melhor mês pras acerolas. viro com a boca aberta e cara de “oi, quê?”. acerolas. pra plantar, pra cortar, qual a melhor época do ano.

– pai, como assim?, eu não faço ideia.

desço a cabeça outra vez pro trabalho, penso as frutinhas estourando de vermelhas lá no jardim, o entorno verde. paro. taco no google algo como “acerola época plantio colheita”. vejo sites falando de cultivo fácil, planta tropical, temperaturas altas, não esquecendo da água, é claro. digo ao meu pai que, aparentemente, ele pode cortar e plantar quando quiser: a bichinha é mesmo forte e versátil. tem chovido muito nestes dias e sempre vem alguma dificuldade. se você não anda bem com guarda-chuva, se você não anda bem na chuva, se você não anda bem. sabemos que por dentro às vezes há goteiras. pode ser que valha a pena, cinco minutos, parar de história e ver o que a água tem levado de espaço seco e trazido em cores. focar e cronometrar o ciclo de vida das acerolas.

(alguém podia fazer um ensaio sobre o sol nos bairros à tarde)

isso de cavucar luz é quando se procura não pensar pontos turvos: acreditar que vou a outra cidade de bicicleta, que eu poderia ter consertado a asa da borboleta que por dois dias cuidei com água e flor mas no terceiro esqueci no jardim para morrer também por uma água tamanha……. foi naquela semana de chuvas. penso trocar as fotos da parede, penso bordar algo bonito, acertar no buraco da agulha a linha poética, desisto para comprar luzes e pôr ao redor da minha cama com a mesma rapidez com que uma das fotos cai em cima da gata. sonolenta. é impossível não sorrir para ela como é impossível não sorrir por exemplo com as fotos do concurso de sósias do hemingway. conceber que entre revisar textos médicos e decorar janelas de conversa no celular eu prefira, acontece sempre-é sempre assim-passar mal dentro dum poema. todo o verso e tudo mais pra dizer entrelinhas, entrelinhazinhas que um dia é um bicho bravo sem freios, é um campo muito vasto, é a cor do cavalo,

sobretudo seu galope.

climatologia

saber do outro que é frágil, como uma plantinha frágil
a tua cara na janela, bonita feito uma jabuticaba bonita

é difícil a manutenção de estar vivo, assim em relação ao tempo
sob o sol é corpo que se expande, os gestos nascendo como queriam
já cinza de céu é sugestão de bicho em concha. a carne de si pra si

— vê qual a máxima pra hoje.

me certifico de que você ainda respira, mesmo com a quentura:
o cenho, o tronco, as tuas pernas morenas
tudo são movimentos que não mais domino
(nunca cheguei mesmo perto de pedras preciosas)

quando a estação muda diz do outro, tão frágil
eu pendurada na janela, ao lado de plantinhas vivas e bonitas

feito uma jabuticaba bonita

 

[poema publicado na antologia Senhoras Obscenas, pela Editora Benfazeja]

 

encontrei isso num caderninho ontem

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dia 1 foi aniversário de lançamento do Marambaia, meu livro. segunda-feira. mesmo dia da semana em que caiu meu último aniversário – lembro que acordei feliz, satisfeita pelos ares e pelo clima. no dia do lançamento, lá em 2013, também o tempo foi algo que me favoreceu (tava doida pra botar um vestido, às vezes eu quero muito botar um vestido). no caminho pro lançamento felipe mandou mensagem, “o céu tá que nem a capa do seu livro”. estava. esses dias reli meu livro – só devo ter feito isso umas três vezes esse tempo todo –, fiquei com tanta ternura.

conheci, pelo meu poema favorito da cecília meireles postado pelo marcus groza no facebook, a dona de um blog em cujos textos tenho morado algumas vezes (oi, ana!). em um tempo de selfies séries rostos acontecimentos bombardeios, gosto de lembrar de quem a escrita desse mundinho de blogs me trouxe. penso em natame, penso em guilherme, na natalia. beleza antiga. a gente fica grata.

nessa mesma semana de aniversário do livro visitei na casa de maíra o astronauta, gatinho que surgiu miento e faminto na minha casa e aqui ficou por duas semanas, até que maíra se apaixonou por uma fotinha dele e adotou de vez. nós tínhamos trabalhado juntas por um período, mas não lembro de traço de conversa além do “oi”. a coincidência bonita é que o astro apareceu no dia em que eu estava indo, com a xará carina castro, sambar um coco lá no butantã – e a maíra fazia parte do grupo que se apresentou. mas que lindeza, mas que loucura.

foi um dia antes do aniversário do livro: depois de um trabalho de detetive na internet (meus dons de stalker bizarra……), encontrei e consegui contato com meus parentes na bahia, com quem não falávamos, aqui em casa, há vários anos. tia, primos, parentada bonita que dói.

que bom é pensar em bons encontros quando a vida está parecendo uma rua larga demais pra cruzar com alguém. ainda bem que tem o drible.

ontem à noite fiquei emocionada olhando pra minha gata, precisei falar “corinha, nossa, eu te amo tanto” enquanto ela lambia um pouco de danone no meu dedo, bem pertinho bem vesguinha bastante satisfeita. pra que fizeram o bicho com um nariz de coração? a vida é uma fofura.

agora tenho uma bike, chama-se loba. é muito novo isso de bike na minha vida, só aprendi a andar agora bem adulta, mas ainda tenho muita vergonha de experimentar na rua, as pessoas ficam olhando – as pessoas podiam ter delicadeza. descobri no google que existe uma coisa chamada “guidão seca suvaco” – gente, isso é sério?? mas que maravilha, a vida é uma piada.

tenho experimentado observar quando sou horrível, raivosa, o sangue parecendo uma panela com molho borbulhante, quero esfregar rostos no asfalto, brigar muito. pra onde vai a poesia? ser um cavalo bruto agressivo. a tpm é um outro momento, pra dentro e tristinho, ofendidíssima com tudo, qualquer coisa é NOSSA…….. coração sangue lágrima.

reescrevi meu projeto de mestrado em três dias, chorando loka, garganta inflamada, felipe socorrendo, sofri muito. tentei uma bolsa, não consegui a bolsa. escrevi um trabalhinho sério essa semana, análise teoria tals, mandei pra professora e ela “devo dar um retorno até terça”. quase pedi pra mandar em comic sans pra ver se assim dói menos. estou esperando. escrevi todos esses dias, pra fins vários, incrível como as palavras existem. que bom que bom.

e não é nem meio do mês ainda!…… nossa, que isso, agosto seu loko. 2016, nossa. mas foi dia 1: o Marambaia fez três anos.

violáceas

de pequena assim criança, quanta recusa com a berinjela?
terror dos ditados na escola (gê ou jota?)
não se nega que sempre foi bonita
cor retinta que no primeiro desvio reflete a luz
– olha pra mim. nos seus olhos, quando há procura, o escuro volta?

eu não, essas coisinhas dentro, era fácil achar estranho
mas agora como. e como. de rejeitada a astro de um prato
brilhou, a bicha, e não faltaram elogios a mim

pai não plantou ainda lá atrás de casa
(morreu o meu cachorro cego, fizemos um jardim)
mas você sabe
há sobretudo uma brincadeira das plantas:
quando delas você precisa, nunca tem

de mãos limpas, sugiro lugar debaixo da janela
onde por sorte um sol bate
crescem no tempo do nunca, em clima colorido tudo muda
buganvílias, beringe…
berinjelas
(eu também)