cristaleira

000526340016.jpg

a precaução diz:
tome para si do suor a aceleração,
anote bem os carinhos que ninguém mais acessa,
como a curvinha muito macia da virilha.
me gusta marihuana, me gustas tu

*

em algumas manhãs logo cedo acontece algo de muito triste
que me faz pensar em tomar chá com mais frequência
ou pedir a você que saia de onde estiver
pra vir tirar os grampos do meu cabelo.
saber que não vem agora e não vem depois, mas num tempo muito próprio
tem sua porção inequívoca de peso e solitude:
estas são duas das ervas fervendo já na superfície da água,
no que fecho os olhos e engulo tudo.

arde tal qual o segundo em que as coisas se quebram,
tal qual quando a conversa deixa de fazer sentido.
— olha, não sei mais o que tô falando, vamo dormir agora.

ficam os cacos no chão para os quais não há conserto, ainda brilhando
a louça finíssima de que são feitos os utensílios do tempo.

Anúncios

puxei do âmago do âmago pontos submersos pra aprender ligeiro a correr perigo, como quando as tartarugas pequenas correm pra água sem prever a seriedade do movimento porque pertencer ao mar é já sabê-lo. julho nasceu ontem mas corre também tão tão rápido dizendo a que veio e a que veio seu frio. fico chocada com como esse gelar fecha o corpo ao mesmo tempo que abre sem pudor, escancaradas, as florzinhas dos ipês cor-de-rosa. árvores invernais são uma violência de beleza – observei com elas (pupila dilatada) que até em circunstâncias as mais tristes há que se ter doçura, e este é um segundo aprendizado. voltando à história de correr nisso correr naquilo, veja quanto é necessário matar lentamente ervas daninhas pra prosseguir com o passo: um caminho só é um caminho se a cor dele respeita o toque dos teus pés. por fim, é correr a buscar a chave pra pedir cautela ao tempo nisso tudo de estarmos sozinhos ou gelados no tanto e no corpo, quando flor já não há.
você ainda é coisa delicadíssima.

deverão

dispensar os óculos pode ser precioso
as pessoas com rostos sem identidade
sorriso pode ser dor que pode ser lágrima que pode ser inércia
além das luzes, que ficam como que diluídas na matéria da tarde
(insisto: alguém podia fazer um ensaio sobre os bairros à tarde)
o sol cai diferente sobre as casas
cachorros preguiçosos nos quintais com o cheiro deles
os gatos já não: num tempo suspenso

pensar
o perfil fino das mariposas
e como qualquer coisa grave escapa nas reticências em festas

sobre lugares em que se está, naqueles em que você não deve estar
ou esse problema sério de a minha planta estar com as pontas amareladas
ou esse problema sério de as coisas acontecerem sempre no seu tempo

preferir
pensar a tarde infinita feita da matéria de coisas infinitas
ou você pode tentar fazer disso música
mas dá sete da noite e ainda é dia. dá sete horas e é dia.

píer

000264980029-001.jpg

encha a boca d’água porque a conversa do salto
quase sempre é cheia de sal
toda reticência trava atrás da língua e desemboca lá
em ilhas escondidas do corpo

você disse que, na pontinha, cada dia desliza menos
aí você disse que todos os dias dá pra ver da beira, feito barco
uma porção de partículas verdes em gotas gastas de desejo

desejar, aproximar, saltar
veja que quase tudo ainda é sobre verbo e vontades
saltar pra tocar o canto das baleias
saltar pelo fato de não entender nunca
esse calor concentrado na tua nuca

enchi, então, a boca d’água pra não salgar
mirei uma ilha, chamei pro raso palavra e movimento
de desejar, aproximar, saltar

desejar aproximar saltar

nublado e pancadas de chuva

estou focada na revisão de um texto. didático, história. na mesa da cozinha, o notebook e os papéis dividem espaço com pães, garrafa de café, fruteira. coloco um álbum instrumental pra tocar e embalar o trampo, ativo o cronômetro pra ver, afinal, quanto tempo levo na leitura das páginas. o meu pai chega, de súbito como sempre chega, e pergunta qual o melhor mês pras acerolas. viro com a boca aberta e cara de “oi, quê?”. acerolas. pra plantar, pra cortar, qual a melhor época do ano.

– pai, como assim?, eu não faço ideia.

desço a cabeça outra vez pro trabalho, penso as frutinhas estourando de vermelhas lá no jardim, o entorno verde. paro. taco no google algo como “acerola época plantio colheita”. vejo sites falando de cultivo fácil, planta tropical, temperaturas altas, não esquecendo da água, é claro. digo ao meu pai que, aparentemente, ele pode cortar e plantar quando quiser: a bichinha é mesmo forte e versátil. tem chovido muito nestes dias e sempre vem alguma dificuldade. se você não anda bem com guarda-chuva, se você não anda bem na chuva, se você não anda bem. sabemos que por dentro às vezes há goteiras. pode ser que valha a pena, cinco minutos, parar de história e ver o que a água tem levado de espaço seco e trazido em cores. focar e cronometrar o ciclo de vida das acerolas.

(alguém podia fazer um ensaio sobre o sol nos bairros à tarde)

isso de cavucar luz é quando se procura não pensar pontos turvos: acreditar que vou a outra cidade de bicicleta, que eu poderia ter consertado a asa da borboleta que por dois dias cuidei com água e flor mas no terceiro esqueci no jardim para morrer também por uma água tamanha……. foi naquela semana de chuvas. penso trocar as fotos da parede, penso bordar algo bonito, acertar no buraco da agulha a linha poética, desisto para comprar luzes e pôr ao redor da minha cama com a mesma rapidez com que uma das fotos cai em cima da gata. sonolenta. é impossível não sorrir para ela como é impossível não sorrir por exemplo com as fotos do concurso de sósias do hemingway. conceber que entre revisar textos médicos e decorar janelas de conversa no celular eu prefira, acontece sempre-é sempre assim-passar mal dentro dum poema. todo o verso e tudo mais pra dizer entrelinhas, entrelinhazinhas que um dia é um bicho bravo sem freios, é um campo muito vasto, é a cor do cavalo,

sobretudo seu galope.

climatologia

saber do outro que é frágil, como uma plantinha frágil
a tua cara na janela, bonita feito uma jabuticaba bonita

é difícil a manutenção de estar vivo, assim em relação ao tempo
sob o sol é corpo que se expande, os gestos nascendo como queriam
já cinza de céu é sugestão de bicho em concha. a carne de si pra si

— vê qual a máxima pra hoje.

me certifico de que você ainda respira, mesmo com a quentura:
o cenho, o tronco, as tuas pernas morenas
tudo são movimentos que não mais domino
(nunca cheguei mesmo perto de pedras preciosas)

quando a estação muda diz do outro, tão frágil
eu pendurada na janela, ao lado de plantinhas vivas e bonitas

feito uma jabuticaba bonita

 

[poema publicado na antologia Senhoras Obscenas, pela Editora Benfazeja]